domingo, dezembro 18, 2005

Eu odeio Moscas

Quando eu me mudei para o Parque das Nações, nós tinhamos um gato chamado Elvis. O coitado era meio fraquinho e passava a maior parte do tempo deitado, mas um ônibus conseguiu atropelá-lo naquela rua nova. Então arranjamos um filhote chamado Johnny, que teve a capacidade de morrer atropelado aos dois meses de idade no meu aniversário de 18 anos.
Nesse momento eu decidi que eu não queria mais criar gatos naquela rua de trânsito infernal. Foi nesse ponto que uma vizinha achou um gato doente, e já que ele ficava na construção ao lado de casa nós começamos a dar comida pro bichinho. Ele era muito feio, extremamente magro e tinha diarréia crônica. Foi questão de tempo até assumir que aquele gato era nosso pra valer. No final daquele ano eu me formei, então eu passava o dia todo em casa. Isso e mais o fato de que eu dormia de manhã e ficava acordado de madrugada fazia com que eu fosse a principal companhia pra ele.
O momento em que eu percebi que aquele gato confiava mesmo em mim foi uma madrugada em que eu ouvi ele miando alto do lado de fora, e quando fui ver ele estava sendo acuado por um gato maior. Eu espantei o gato, desci ele do muro, ele entrou em casa comigo e ficou no sofá dormindo ao meu lado. Éramos oficialmente grandes amigos.
Ele cresceu muito, se tornou um gato grandalhão e duro feito pedra. Quando era pequeno nós o chamávamos de Vampeta, pela feiúra, mas quando ficou bonitão vimos que precisava de outro nome. Ele passou a se "chamar" Negão. Infelizmente, a chegada da gata branca e peluda da minha irmã coincidiu com a "adolescência" dele, e ele praticamente não passava tempo em casa. Novamente graças ao meu horário, ele ganhou o saudável hábito de se jogar na janela de onde eu estava, exigindo que eu abrisse pra ele entrar e comer sua ração e tomar leite. Ele nunca perdeu o hábito de tomar leite.
Com o tempo, passamos a deixar a janela aberta pra ele. Não satisfeito, ele ficava miando pela casa (lá pelas 5 da manhã) até que eu levantasse (mesmo tendo ido dormir às 4) pra que ele comesse de luz acesa enquanto eu era obrigado a passar a mão nele. Ele também tinha o estranho hábito de se jogar no chão de barriga pra cima quando alguém coçava a bochecha dele. E o hábito mais estranho ainda de rolar no chão brincando com o Java, um cachorro bem maior que ele.
Infelizmente, o fato dele passar tanto tempo fora de casa brigando com outros gatos fazia com que ele voltasse frequentemente machucado pra casa. Foi quando eu tive que me acostumar a passar remédio em ferimentos de animais. Tanto que até costumava cutucar casquinhas de feridas dele enquanto alisava o gato. Uma vez tirei uma unha inteira do pescoço dele.
Mas uma vez ele teve um problema pior que o normal. Sua pata inchou e se encheu de pus, até estourarem vários buracos por onde vazava um líquido fedorento. Foi aí que eu entendi quando dizem que os pais não tem nojo nem se chocam com essas coisas nos filhos. Todos achavam que ele ia morrer, mas eu sabia que ele era mais forte que isso. Ele sarou. Mas começou a ter uns problemas, qualquer ferimento nele "estourava", ficava totalmente aberto. Uma vez um corte na garganta abriu a ponto de eu achar que via a traquéia dele, e minha mãe tinha medo de que a comida saísse por lá quando ele comia. Mas ele sarou.
Outra vez (o Jão deve lembrar, já que ficou horrorizado) descobrimos que um corte profundo no pescoço dele tinha larvas por dentro, comendo ele vivo. Um unguento que compramos e com o qual enchemos o tal buraco fez com que as larvas "chovessem" do gato; foi nesse ponto que o Jão ficou horrorizado. Ela sarou, só ficou com uma cicatriz.
Mas eram os ossos do ofício, ele tinha que manter seu posto de Gato Chefe da rua. Dava até dó de ver ele batendo nos outros gatos. Dizem que um gato morreu depois de cair do telhado enquanto brigava com ele. Dizem que depois disso ele empurrou cinicamente um outro gato de um telhado. E eu vi ele atropelar o meu cachorro como se fosse nada enquanto perseguia outro gato. Resumindo, o Negão, o meu mano, era foda.
Por isso mesmo foi muito duro quando eu me casei. Eu gostaria muito de ter trazido ele, mas a localização é péssima pra gatos, e ele estava muito acostumado com aquele bairro. O que me deixou tranquilo foi o fato de que a Cláudia pra cuidar de animais é a melhor pessoa que eu conheço. Mas eu sempre senti um certo remorso por abandonar meu irmão caçula desse jeito...
Então tudo veio de repente. Onze da manhã me falaram que ele não aparecia em casa há 3 dias. Meio dia me falaram que eu devia ir lá pra ajudar com ele, pois estava de novo com larvas, mas desta vez em metade do rosto. Três da tarde soube que ele tinha sido levado ao veterinário pra tirar os bichos. Cinco da tarde pediram pra gente decidir se deveriam operar ou sacrificar meu gato, pois os ferimentos eram mais profundos do que pareciam. Conseguimos barganhar de decidir isso após ver como ele estava. Seis da tarde eu entro numa sala e colocam meu velho parceiro anestesiado numa mesa de metal. Eu tentei conversar com ele, mas o máximo que ele conseguiu foi abanar o rabo. A veterinária contava que se ele aguentasse até a cirurgia, mesmo assim o cérebro, o globo ocular e a traquéia podiam estar comprometidas, e seria preciso tirar todo o tecido necrosado, o que o deixaria praticamente sem metade do rosto. E mesmo assim ela dizia que ele provavelmente não resistiria, pois estava fraco e desidratado por ter ficado todo esse tempo fora de casa. Na decisão mais difícil da minha vida, resolvemos que ele não deveria sofrer mais. Mas ainda pior foi deixar aquela sala. Ele parecia tão indefeso, respirando devagar, era difícil até sentir seu coração batendo. O inconsciente não perdoa, e fica martelando que por trás de todos os motivos e razões, você está apenas deixando ele sozinho ali...
É esquisito pensar que pelo resto de minha vida eu jamais vou ver ele fazendo todas as coisas de que me lembro, nem ouvir aquele miado alto, grave e desafinado. O chão da cozinha ainda está sujo de leite, e a escada que ele usava ainda está em pé no fundo da casa. Mas não vão ficar assim pra sempre. E o que vai restar dele? Juro que até pensei em guardar a toalha enxarcada do machucado dele, mas o bom senso falou mais alto... O que restará dele? Muitas boas lembranças. E a certeza de que um de meus melhores amigos não precisou ser humano pra marcar muito minha vida.

4 comentários:

Mel disse...

Ah, cara...

Anônimo disse...

putz

Unknown disse...

Em maio desse ano, passei por situação bem semelhante. Um daqueles momentos da vida que vc é obrigado a refletir muito sobre um destino inevitável.

Uma bosta, cara. Uma bosta.

Anônimo disse...

Me fez lembrar minha gata que veio se despedir de mim antes de sumir pra sempre depois de 10 anos de tê-la salvo de meus nêmeses ainda suja de lama... partiu porque tava morrendo e não queria dar trabalho...